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Minha mais
remota lembrança da lagoa de Imboassica data de 1959. Meu pai decidiu passar
férias em Barra de São João para praticar seu passatempo predileto: a
pescaria esportiva. Barra de São João não passava de um povoado sem o mínimo
conforto de um balneário da atualidade. Ficamos hospedados numa pensão atrás
de um posto de combustível e perto da ponte antiga, hoje em ruínas. Rio das
Ostras tinha apenas algumas casas em meio a uma vegetação de restinga
luxuriante.
Num
dia de nossas férias, meu pai quis pescar na lagoa de Imboassica. Chegamos a
ela depois de uma viagem num carro velho que rodou perto de uma hora sobre
uma estrada de terra. Eu contava então com 12 anos de idade e me lembro como
se fosse hoje de uma parada nas margens da lagoa, completamente agreste e
muito mais ancha que atualmente. Lembro-me de um vago manguezal. Mas, acima
de tudo, minha memória olfativa registrou indelevelmente um cheiro de lagoa
saudável, que evapora com rapidez crescente nos dias que correm.
Numa homenagem
nostálgica ao meu olfato de adolescente, empreendo uma viagem mental e
sentimental àquele longínquo tempo. Retorno à lagoa de Imboassica e não
encontro mais qualquer resquício de manguezal. Por informação pessoal de
Francisco de Assis Esteves, que vem estudando há anos a lagoa, cientifico-me
de que nenhum manguezal foi encontrado em seu interior até o momento. Então,
retorno ao passado que documentos e livros me relatam. Maximiliano de
Wied-Neuwied, um nobre naturalista alemão que realizou uma viagem científica
do Rio de Janeiro a Salvador entre 1815 e 1817 pela costa surpreendeu as
margens da lagoa, em 1815, cultivadas com mandioca, arroz, café e laranja,
registrando em suas águas abundância de peixes. Dois anos depois, Aires de
Casal informou que “A Lagoa de Boacica, que fica duas léguas ao sul do rio
Macaé, e mui próxima ao Oceano, tem duas mil e quatrocentas braças de
comprimento, seiscentas na maior largura, e pouco fundo. É salgada, e
abundante de peixe, que sobe do mar, depois que se lhe abre um esgotadouro;
e recolhe as águas do córrego, que lhe dá nome, do Serraria, do Mutum, do
Riacho da Alagoa, e do Riachinho.”
Repetindo as
informações de Casal, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire apenas
divergiu dele quanto à largura da lagoa, a que atribui 60 braças.
Acrescentou, por observação sua, que ela era margeada de grandes florestas.
O major Henrique Luiz de Niemeyer Bellegarde endossou as medidas de Casal e
seus afluentes, talvez o copiando. Os dois mais importantes levantamentos
cartográficos do século 19 grafam a lagoa de Imboassica como um rio cujo
curso fluía na direção oeste-leste até incidir perpendicularmente sobre a
costa atlântica, onde desembocaria. Na representação cartográfica de
Bellegarde e Niemeyer, de 1865, tem-se a nítida impressão de que o córrego
de Imboassica, com nascente na serra de Iriri, engorda em sua foz pelo
barramento natural dela por arte do mar, transformando-a numa lagoa com
comunicação intermitente com o oceano. Intervenções humanas posteriores
teriam consolidado cada vez mais a barra, por tibieza das águas que
alimentavam a lagoa.
A partir dos
anos de 1970, a lagoa de Imboassica passou por um acelerado processo de
urbanização decorrente da instalação da Petrobras em Macaé para a exploração
de petróleo e gás natural na plataforma continental. Em conseqüência, os
setores norte e oeste da lagoa sofreram aterros para a construção de casas
residenciais e comerciais. A produção de esgoto saturou progressivamente
suas águas, que foram eutrofizadas. A comunicação com o mar foi sendo
perdida e a lagoa, de salgada que era no século 19, transformou-se em
salobra, junto à barra, e em doce, nas cercanias do rio Imboassica, no
século 20. Aberturas antrópicas da barra em períodos de cheia provocam
impactos fortes sobre o ecossistema, com a formação de fluxos em direção à
antiga embocadura que disseminam material poluente retido nas margens.
Deve-se levar em conta igualmente a brusca redução do volume d’água, o
choque salino e térmico. Tais transformações acabaram por suprimir
progressivamente as condições para a existência de bosques de manguezal na
lagoa.
Mas quem diria
que o pujante rio Imboassica, retratado em foto de 1957, está reduzido a uma
vala melancólica que serve atualmente de limite entre os municípios de Macaé
e Rio das Ostras? Faz tempo venho defendendo a restauração e a revitalização
de rios. No entanto, creio que perdemos o belo rio Imboassica para sempre. E
as perspectivas para a lagoa de Imboassica não são mais promissoras.
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