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Nascimento, Vida e
Morte da Lagoa de Imboassica
A Beleza de Hoje
A Lagoa de Imboassica é uma das mais
belas ornamentações das redondezas de Macaé. Contemplar o entardecer em suas
margens, apreciando as montanhas ao fundo, é compartilhar com Deus um
pedacinho do paraíso. Esse maravilhoso espelho d'água se posiciona,
estrategicamente, entre a agressividade do mar à sua frente, e a quietude
das colinas às suas costas.
Ao caminharmos sobre o cordão de
areia que a separa do mar, podemos perceber o enorme contraste entre a fúria
das ondas de um lado, e a serenidade da lagoa do outro. Nesse contexto
litorâneo, ela se interpõe como o elemento natural que busca harmonizar, de
maneira graciosa, o continente com o mar.
O Trabalho de Ontem
A natureza, com toda a sua
paciência, levou um bom tempo para moldar o que é hoje a nossa Lagoa de
Imboassica. A história começa há algumas centenas de milhares de anos,
com a implantação de um curso fluvial que por aí passava, alargando seu vale
e levando suas águas e sedimentos para um mar que se encontrava a uns 100km
de distância, lá pela altura dos campos de Pampo e Enchova.
Durante um período de nível de mar
baixo, entre 12 e 20 mil anos atrás, o Rio Imboassica deveria receber como
um de seus afluentes o rio que drenava o vale do Balneário das Garças, e daí
iria confluir com o Rio Macaé, lá pelas proximidades do atual Arquipélago de
Santana. Há 17 mil anos, um aquecimento global causou o derretimento de
parte das calotas polares, o que fez o volume de água do mar subir
vertiginosamente.
Por volta de 10 mil anos atrás, os
vales da região estariam severamente inundados pelo mar, com a desembocadura
do Rio Imboassica ficando represada na posição da atual lagoa, formando ali
um pequeno estuário. Ele estaria ligado a um estuário mais amplo, formado na
atual Planície do Rio Macaé. Nessa época, extensos manguezais devem ter
dominado a paisagem ao redor, ocupando as áreas onde atualmente encontram-se
a Linha Verde, a Linha Vermelha, Campo do Oeste e Balneário das Garças,
dentre outras.
O nível do mar atingiu seu máximo há
7 mil anos atrás, quando então foi completamente afogado o estuário
Imboassica, resultando ali, numa enseada marinha, alagando também as áreas
adjacentes onde encontravam-se os manguezais. As colinas à retaguarda
passaram a receber o embate direto das ondas. Tornaram-se, assim,
verdadeiras falésias, como os costões rochosos de Búzios.
A abrasão marinha abriu caminho para
o solapamento das encostas, o que lapidou um alinhamento de morros de bordas
abruptas que observamos desde o loteamento São Marcos até o Morro de
Santana. É no sopé dessas paleofalésias que se instalou a linha férrea de
hoje.
O Nascimento da Lagoa
Entre 5 e 3 mil anos atrás, o mar
baixou cerca de 4 metros, abandonando os costões, deixando-os como falésias
fósseis. A barra de areia aflorou e se estabilizou, individualizando
definitivamente a lagoa, como tal. A partir de então, o corpo d'água assim
formado, passou a viver um regime lagunar, de semi-isolamento. A comunicação
natural com o mar obedecia a ciclos regulares.
Durante as cheias fluviais, a lagoa
transbordava naturalmente, escoando seu excesso de água e de vida para o
mar, cumprindo, assim, sua função de criatório de peixes e crustáceos. Numa
freqüência bem menor, a barra pode ser rompida por vagalhões
extraordinários, ondas anormalmente altas, até maiores do que 10 metros,
ligadas às chamadas tempestades seculares.
Desse modo, funcionou a lagoa nesses
últimos 3 mil anos, entre tempestades e calmarias, fornecendo ao mar vida em
abundância. Enquanto isso, o processo de assoreamento se dava sem pressa, no
ritmo que a natureza gosta. A ocupação indígena se deu talvez por volta de
mil anos atrás. As lagoas da região foram uma das principais fontes de
alimentação desses povos, existindo registro de sambaquis pré-colombianos
nas proximidades de várias dessas lagoas.
A Agonia de Agora
Com a ocupação urbana do homem
moderno, vieram os problemas. O primeiro deles foi a ocupação indevida do
alvéolo da lagoa, através de aterros que invadiram áreas que pertenciam
naturalmente ao corpo d'água. Quando o nível da lagoa sobe, e ela pede de
volta essas áreas que eram suas, a população se vê obrigada a fazer a
abertura forçada da barra, esgotando as águas para o mar, em hora geralmente
imprópria, quando os alevinos ainda não se encontram prontos para ganhar o
mar aberto. Esses esgotamentos catastróficos quebraram toda a dinâmica
natural do ciclo de vida da lagoa.
Outro problema sério está na descarga de
esgotos "in natura" que a lagoa recebe dos bairros adjacentes. Isso vem
ocasionando o processo de eutrofização da lagoa, que leva a uma
desoxigenação de suas águas, com a conseqüente morte de peixes e crustáceos.
A abundância de nutrientes trazidos pelos esgotos ocasiona, inicialmente,
uma explosão de vida na lagoa. Com o excesso de organismos morrendo, o
processo de decomposição passa a consumir tanto oxigênio, que as águas do
fundo passam a ficar pouco oxigenadas, restringindo as condições de vida e
depositando uma lama orgânica, enriquecida pelo venenoso ácido sulfídrico.
O Que Será Amanhã?
Uma boa forma de antevermos o futuro
da Lagoa de Imboassica é observarmos a situação em que se encontra o
Balneário das Garças. Trata-se de um alagadiço recém assoreado, de alguns
séculos pra cá. Já foi uma lagoa do porte de Imboassica, porém mais rasa. À
medida que a lagoa se transforma num pântano, ocorre uma sucessão ecológica
sobre a barra que a separa do mar, passando pelos estágios de vegetação
herbácea, arbustiva e arbórea. Imboassica tem hoje uma barra móvel sem
cobertura vegetal, enquanto no Balneário das Garças encontramos uma barra
vegetada no estágio mais evoluído, apresentando uma exuberante Mata de
Restinga. Qualquer lagoa apresenta um tempo de vida útil. Afinal, ela é uma
bacia para onde convergem os sedimentos de suas margens. No entanto, esse
processo está sendo brutalmente acelerado pelo homem na Lagoa de Imboassica.
As aberturas forçadas de sua barra forçam a movimentação de sedimentos no
leito da bacia lagunar, provocando o rastejamento desse material em direção
à sua barra. Isso abre espaço para a entrada de mais sedimentos trazidos
pelo rio e das encostas adjacentes, já tão pontuadas por focos de erosão. Os
desmatamentos da área remontam aos tempos coloniais. Assim, temos um
processo de assoreamento super-intensificado, encurtando a vida útil da
lagoa. Uma estimativa preliminar permite arriscar que a lagoa teria
condições de durar até uma dezena de milhares de anos, ou seja, ainda mais
uns 3 a 5 mil anos. No entanto, no atual ritmo de assoreamento, a lagoa
poderá ter sua vida encurtada para alguns poucos séculos ou mesmo apenas
décadas. Podemos avaliar a velocidade desse assoreamento quando percorremos
o vale do Rio Imboassica. O desmatamento secular de suas margens já o
colocou num estágio avançado de tamponamento de seu leito e de estagnação de
suas águas. Vale lembrar que a situação ambiental é o reflexo da consciência
da comunidade que habita aquele local. A revitalização de nossa ainda bela
Lagoa de Imboassica depende de atitudes concretas de nossa parte. Mãos à
obra. |